Joseph de Maistre: um molinista responde à Revolução Francesa

Joseph de Maistre: um molinista responde à Revolução Francesa

Alta Linguagem

Traduziudo de: NATHANIEL SANDERS, Joseph de Maistre: A Molinist Responds to the French Revolution [GREGORIANUM 103, 4 (2022) 781-804].

RESUMO

Joseph de Maistre representa, através de sua apropriação de ideias molinistas-congruístas acerca da providência e da predestinação, uma continuação do pensamento jesuíta após a supressão da Sociedade de Jesus. Essa tendência de seu pensamento tem sido há muito negligenciada, mas é preciso captá-la para compreender sua confiança na tradição e sua teoria política. Por meio de uma análise de sua resposta à Revolução Francesa, vista por ele como uma “feliz culpa” divinamente permitida, pode-se claramente ver essa influência de pensamento.

Palavras-chave: Joseph de Maistre — Congruísmo — Molinismo — Revolução Francesa — Providência — Predestinação — História Jesuíta

Joseph de Maistre: um molinista responde à Revolução Francesa

Embora suprimida na Europa Ocidental durante a Revolução Francesa, as posições teológicas da Companhia de Jesus influenciaram as respostas católicas a esse dramático levante. Na pessoa de Joseph de Maistre, o pensamento congruísta-molinista continuou a ser influente em toda a Europa. Profundamente perturbado pela Revolução Francesa e sua propagação por toda a Europa, Maistre buscou compreender a Revolução à luz da divina Providência. Fiel à sua formação jesuíta, Maistre era um congruísta-molinista que tentou manter tanto a independência da vontade humana quanto a ordenação providencial da criação em sua compreensão da história e em sua argumentação sobre por que Deus permitiu que a Revolução ocorresse. Embora vários estudos recentes de seu pensamento tenham enfatizado suas influências contemporâneas, seu Molinismo tem sido amplamente ignorado.1 O Molinismo fornece a base para sua discussão de três preocupações principais para a compreensão da catástrofe e da Providência divina—a vontade permissiva de Deus ao permitir o mal, a presciência divina e a liberdade humana, e a relação entre Providência e progresso—ainda que a influência da Revolução e do Iluminismo resulte em uma abordagem original.

Esta figura central na história do pensamento católico, que conecta os mundos pré e pós-revolucionário, comunicou uma forma de Molinismo que se torna importante para a reconstrução da teologia na Europa. De uma perspectiva prática, Maistre via a Revolução como uma força purificadora na Igreja Francesa que a livrou de laxismos e heresias. O Jansenismo, o galicanismo, o protestantismo e o philosophisme haviam se mostrado inadequados diante da Revolução. A Revolução era um resultado do erro teológico e precisava ser combatida teologicamente. Para combater esses erros, ele propôs o ultramontanismo como uma solução tanto teológica quanto política. Suas críticas à filosofia iluminista também são centrais, mas serão discutidas somente em relação à influência sobre a Revolução. Embora o Molinismo forneça a base metafísica para discutir a realidade da Providência divina e da natureza humana, grande parte de sua escrita sobre a Providência trata dos efeitos práticos da Revolução sobre a Igreja e o Estado. A partir do estudo da ordenação providencial da criação na história, certos padrões que justificavam grandes épocas de mal emergiram. De Maistre também tentou prever como Deus usaria a Revolução para edificar a Igreja. Para vermos os efeitos da Revolução sobre sua vida e pensamento, bem como suas influências teológicas, examinaremos primeiro sua vida e obra antes de discutir sua teoria da Providência, sua análise da Revolução e a possibilidade de a Revolução ser uma “culpa feliz”.

I. Vida e obras

Embora sua obra tenha sido ocasionada pela Revolução Francesa, Joseph de Maistre não era francês. Ele nasceu em 1753 em Chambéry, no Ducado de Saboia, francófono, que havia se tornado parte do Reino da Sardenha em 1720.2 Seu pai era um senador recentemente nobilitado. Embora não haja relatos definitivos sobre sua educação inicial, tudo indica que ele foi educado pelos jesuítas. Existem registros de sua adesão a uma confraria que estava sob os auspícios da Companhia de Jesus.3

Quando a Revolução Francesa eclodiu em 1789, Maistre simpatizou inicialmente com ela. Embora não fosse republicano, ele escreveu em tom de aprovação sobre a convocação dos Estados Gerais e sobre a comemoração do aniversário da Queda da Bastilha.4 No entanto, à medida que a Revolução progredia e se tornava mais radical e anticatólica, De Maistre rompeu com ela completamente. Em 1792, quando o exército francês invadiu Saboia, De Maistre foi o único senador que fugiu para a capital sarda, Turim. Após encontrar pouco apoio ali, ele retornou a Saboia em 1793 para descobrir que todas as suas propriedades haviam sido confiscadas. Em 1796, De Maistre escreveu sua primeira grande obra, Considerações sobre a França, na qual condenou a Revolução e previu o retorno do rei ao trono francês. Quando isso finalmente aconteceu em 1814, De Maistre foi aclamado como um profeta (embora estivesse insatisfeito com as condições da Restauração). Posteriormente, ele acrescentou um capítulo sobre a Igreja Galicana, vendo a Revolução como o fim definitivo das igrejas nacionalistas. De Maistre enquadrou a Revolução como um castigo divino necessário pelos erros dos séculos precedentes.

Após servir em vários postos a serviço do Reino da Sardenha, De Maistre foi enviado como embaixador à Rússia em 1803. Separado de sua família e desprovido de quaisquer propriedades, De Maistre começou a compor sua grande obra sobre a natureza da Divina Providência: As Noites de São Petersburgo (Les Soirées de Saint-Pétersbourg). Les Soirées é um simpósio de três homens que discutem o governo temporal de Deus sobre o mundo. A obra foi publicada postumamente em 1821, no mesmo ano de sua morte. Enquanto esteve na Rússia, De Maistre novamente esteve próximo dos jesuítas. Embora suprimida em toda a Igreja Latina, a Companhia de Jesus permaneceu ativa na Rússia Branca [Bielorrússia] porque o decreto de supressão, Dominus ac Redemptor, nunca foi promulgado por Catarina, a Grande. Os jesuítas continuaram a dirigir um noviciado e várias escolas dentro da Rússia; e De Maistre envolveu-se com a obra deles.5 Seus cadernos e cartas indicam que ele mantinha comunicação regular com muitos jesuítas na Rússia, inclusive com o Padre-Geral.6 Coletivamente, eles foram muito bem-sucedidos em converter aristocratas russos ao catolicismo. Esse sucesso acabou levando à expulsão tanto dos jesuítas quanto de Maistre em 1817. O Papa Pio VII restaurara a Companhia de Jesus na Europa em 1814, mas, até então, os jesuítas já haviam sido autorizados a retornar ao Reino da Sardenha, onde a família de Maistre continuava a apoiá-los.7 O próprio Maistre afirmou que teria se tornado jesuíta, não fosse por sua esposa.8

Ao deixar a Rússia, Maistre viajou pela França antes de retornar ao Reino da Sardenha. Naquele momento, a era da Revolução Francesa parecia ter acabado. A fracassada invasão da Rússia por Napoleão em 1812 e sua derrota em Waterloo em 1815 haviam estabilizado as monarquias na Rússia e na Áustria, resultando na Santa Aliança, e os Bourbons estavam de volta ao trono na França. Embora Maistre tivesse previsto isso muito antes, ele não ficou satisfeito com a natureza da Restauração. Ele julgava que ela havia cedido muito à Revolução.

Em 1819, ele publicou o que considerava sua magnum opus: Du Pape. Du Pape examina a natureza do governo, da liberdade e da Igreja. Nele, De Maistre argumenta vigorosamente a favor do ultramontanismo como uma solução política e uma necessidade teológica. Os horrores da Revolução haviam demonstrado os fracassos das Igrejas nacionais e o benefício de uma autoridade singular sobre o cristianismo e os estados europeus. Para De Maistre, o papa deve ter autoridade completa e infalível sobre a Igreja e a autoridade legítima para depor líderes déspotas. O papado se tornaria a fonte da liberdade e da verdade no mundo pós-revolucionário.

Notavelmente, De Maistre começou a escrever Du Pape em 1809, quando o papado estava em seu ponto mais fraco. Napoleão acabara de sequestrar Pio VII para forçá-lo a renunciar aos Estados Papais e para retaliar contra sua declaração de excomunhão. Pio VII permaneceria preso até a primeira abdicação de Napoleão em 1814. Apesar dessa fraqueza, De Maistre via no papado uma solução para os erros políticos, religiosos e filosóficos da época. Somente o papado poderia garantir a verdade contra o protestantismo, o Jansenismo, o galicanismo, o philosophisme e seu descendente, o Jacobinismo. Sua obra ajudou a desenvolver as teorias do ultramontanismo e a eventual aceitação francesa da Infalibilidade Papal em 1870, com a promulgação da Pastor Aeternus pelo Concílio Vaticano Primeiro.9

Estudado hoje principalmente enquanto teórico político, Joseph de Maistre é, não obstante, uma figura importante para a história da teologia. Ao longo de sua escrita, mesmo ao tratar de questões políticas, De Maistre preocupa-se em descrever como Deus cumpre a sua vontade no mundo. Embora tenha sido formado como advogado e estadista, De Maistre reconhecia que a Revolução havia tirado do mundo sacerdotes que tinham tempo para lazer e estudo. Portanto, outros devem assumir a tarefa de defender a Igreja e os caminhos de Deus. Durante um tempo de caos dentro da Igreja, leigos tiveram que começar a realizar o trabalho dos teólogos. Como ele afirma na abertura de Du Pape:

Poderá parecer surpreendente que um homem do mundo se atribua o direito de tratar de questões que, até os nossos dias, pareceram exclusivamente devolutas ao zelo e à ciência da ordem sacerdotal […] Mil causas enfraqueceram a ordem sacerdotal. A Revolução a despojou, exilou, massacrou; serviu de todas as maneiras contra os defensores—natos—de máximas que ela abominava. Os antigos atletas da milícia sagrada desceram à tumba; jovens recrutas avançam para ocupar o seu lugar.10

Ao ocupar o seu lugar, De Maistre tornou-se o pensador católico mais importante de sua geração e, como descreveu Henri de Lubac, o primeiro teólogo pós-medieval.11 Nos anos da Restauração, o pensamento de Maistre orientou a compreensão católica sobre o papel da Igreja dentro do Estado moderno.

Uma reavaliação do pensamento de Joseph de Maistre ocorreu nos últimos trinta anos. Antes ridicularizado como um “precursor do fascismo”, novas obras buscaram situá-lo dentro dos movimentos intelectuais mais amplos do Iluminismo.12 Ele ainda é considerado o pai do conservadorismo europeu moderno, mas um pai aberto aos argumentos filosóficos e científicos de sua época. No entanto, estudos recentes ainda tiveram dificuldade em categorizar seu pensamento. Descrito como qualquer coisa desde um “reacionário” até um “pensador iluminista” ou “pós-moderno”, seu pensamento político desafia a categorização moderna.13 Da mesma forma, suas ideias teológicas foram descritas como “tradicionalistas”, “heterodoxas” ou “pelagianas”.14 Embora sua obra possa se prestar a tais leituras, situar De Maistre dentro dos debates católicos existentes sobre a Providência fornece a interpretação mais útil e completa de seu pensamento. De Maistre raramente menciona Molina ou o Molinismo em sua obra, mas o pensamento molinista forma a base metafísica de sua compreensão da ação divina no mundo.15
De Maistre pode ser popularmente conhecido como a principal força do Contra-Iluminismo e da Contra-Revolução, mas seu pensamento não é simplesmente um produto dos debates sobre a Revolução Francesa. Embora certamente tenha sido ocasionado por esta, seu pensamento é incompreensível à parte dos debates anteriores acerca da Providência e da predestinação. E, embora De Maistre tenha escrito sobre muitas questões teológicas—incluindo: a natureza da oração, do sacrifício, da justiça divina, da eclesiologia, das relações Igreja-Estado e do sacerdócio—, estas questões serão discutidas abaixo somente em relação à Providência. Embora menção seja feita a outras obras, as três mencionadas acima (Considerations sur la France, Les Soirées du Saint-Pétersbourg e Du Pape) formarão a base de nossa análise da compreensão molinista de Maistre sobre a Divina Providência e a “feliz culpa” da Revolução Francesa.

III. O Molinismo de Joseph de Maistre

O Molinismo, oposto à concepção tomista de predestinação, postula a existência de uma scientia media em Deus. Essa scientia media situa-se ontológica e logicamente entre o conhecimento natural de Deus, anterior a qualquer decreto, e seu conhecimento livre, resultante de um decreto.16 Por meio da scientia media, Deus conhece todos os contrafactuais hipotéticos de todos os resultados possíveis dentro da criação. Sabendo como cada ser humano individual agirá em cada situação particular, Deus ordena o universo de tal maneira que a sua vontade nunca é frustrada. A presciência divina é preservada pelo conhecimento de todas as possibilidades antes de decidir qual delas criar; e a liberdade da vontade humana é preservada por não impor nenhuma necessidade de ação a qualquer indivíduo. Para a vontade humana ser livre, ela não deve estar vinculada por nenhuma condição externa, nem mesmo pela ação divina.17 O Congruísmo, que manteve a posição da scientia media, mas postulou que a graça eficaz era sempre eficaz porque Deus a concedia somente em circunstâncias favoráveis, tornou-se a posição oficial da Companhia de Jesus em 1613.18

Em contraste, a posição bañeziana-tomista postulava que Deus pode mover a vontade para escolher o bem. Esse movimento é possível porque Deus, como criador da vontade e primeiro princípio da ação, pode reduzir uma potência na vontade ao ato. Sem a participação na ação divina, nenhuma potência pode ser reduzida à atualidade. Empregando o termo premoção física, os dominicanos argumentavam que a graça era a causa única da diferença de santidade entre os indivíduos.19 Trata-se de uma premoção porque Deus é a causa principal de todo movimento, no qual o homem participa secundariamente. Física é usada para distingui-la de uma noção moral, ou mera atração em direção a um bem.20 De Maistre professa uma devoção a Tomás, mas é crítico em relação às teorias tomistas de predestinação.21 Ele é contra a ideia de premoção física, como afirma claramente em seus cadernos particulares: “Nunca gostei da expressão premoção física, da qual se serviu em algumas escolas para designar a ação divina de Deus sobre o homem. Pode-se dizer que estas duas palavras ardem de pavor ao se verem juntas”.22
Como resultado da Revolução Francesa, De Maistre foi levado a considerar o funcionamento da Providência dentro da ordem temporal. Ansioso para defender a existência da Providência e compreender o propósito de Deus ao permitir que a Revolução acontecesse, De Maistre construiu uma forma de Molinismo influenciada tanto pelo pensamento neoplatônico quanto pelo iluminista. Embora ele deixe claro que a Revolução é um mal, também pensa que ela serve como prova da Providência de Deus ao purificar o mundo do erro. Por meio do Jacobinismo e da Revolução, Maistre acredita que Deus trará o fim dos males do protestantismo, do Jansenismo, do galicanismo e do philosophisme. No entanto, ele também reconhece que não há retorno a um mundo pré-revolucionário. Semelhante a Noé e o Dilúvio, a Revolução necessariamente implica uma nova era sobre a terra.23

Les Soirées começa com os três personagens no rio Neva passando por um barco com um grupo de casamento que carrega uma banda de metais.24 O estilo da trompa, aparentemente comum na Rússia da época, tocava somente uma única nota. Uma banda consiste em vinte a trinta trompas, sem que nenhuma delas consiga executar o acorde ou a melodia inteira. A melodia é governada pelo regente, alguém capaz de criar e organizar todas as notas em uma unidade harmoniosa. Os instrumentos individuais não têm conhecimento do todo, mas conseguem participar dele. Quer os instrumentos o desejem ou não, agem conforme os planos do regente. Maistre é adepto de tais metáforas mecanicistas. Considerações sobre a França começa:

Estamos todos ligados ao trono do Ser Supremo por uma cadeia flexível, que nos retém sem nos escravizar. O que há de mais admirável na ordem universal das coisas é a ação dos seres livres sob a mão divina. Livremente escravos, operam ao mesmo tempo voluntária e necessariamente: fazem realmente o que querem, mas sem poder perturbar os planos gerais. Cada um desses seres ocupa o centro de uma esfera de atividade, cujo diâmetro varia ao sabor do eterno geômetra, que sabe expandir, restringir, parar ou dirigir a vontade, sem alterar sua natureza.25

Embora isso possa parecer semelhante à ideia iluminista do relojoeiro divino (que se opõe ao envolvimento divino no mundo, uma analogia que o próprio De Maistre emprega para descrever a Providência Divina), De Maistre usa a imagem para demonstrar como o homem pode ser livre dentro de um sistema de governo providencial.26 Deus formou os limites e as condições da liberdade humana. O homem age conforme a natureza que lhe foi dada. Embora os homens possam tentar se rebelar contra o governo divino, ninguém é capaz de frustrar a vontade divina. Seria parecido a uma trompa de nota única tocando uma melodia diferente. Dentro da ordenação da Divina Providência, o homem é livre para agir como bem entender. No entanto, a natureza do homem e as circunstâncias do universo estão de tal forma ordenadas que os planos de Deus sempre se concretizarão.

Para explicar a coexistência da presciência Divina e do livre-arbítrio, De Maistre argumenta como um molinista tradicional. Ele toma como absoluto que a vontade não deve estar de modo algum vinculada ou forçada. Se uma escolha livre fosse necessitada por alguma influência externa, a escolha não seria mais livre. Ele afirma isso explicitamente em Les Soirées:

Agora, se considerardes que o próprio Deus não poderia forçar a vontade, visto que uma vontade forçada é uma contradição nos termos, sentireis que a vontade só pode ser agitada e conduzida pelo atrativo (palavra admirável que todos os filósofos juntos não teriam sabido inventar). Ora, o atrativo não pode ter outra vantagem, de modo que o atrativo não poderia prejudicar a liberdade ou a vontade mais do que o ensino, de qualquer ordem que se suponha, poderia prejudicar o entendimento.27

Para que a vontade aja, ela própria não pode ser atuada por uma fonte externa. Deus age sobre a vontade não pela força ou premoção, mas pela atração. A graça é a apresentação de um bem sobrenatural perante a vontade, de modo que esta o deseja por natureza. Porque Deus ordenou o mundo e conhece todos os contrafactuais hipotéticos, as escolhas de uma vontade individual são sempre conhecidas por Deus. Deus aperfeiçoa a vontade atraindo-a para o bem, em vez de a impelir.28 Por meio da scientia media, Deus ordena o universo de forma infalível para o seu fim. Na Providência, até os obstáculos provam ser meios para Deus cumprir a sua vontade.29 Nada ocorre que Deus não tenha previsto anteriormente. Assim, uma estrutura causal Molinista, juntamente com uma ênfase na atração da graça, forma a base teológica para a concepção de Providência de Maistre.

Maistre rejeita a ideia tomista da graça eficaz como resultando infalivelmente na perfeição da vontade. Deus só dá a graça àqueles que a aceitarão. Quando fala da Providência e do castigo dos culpados, Maistre argumenta que Deus frequentemente não pune porque sabe que o castigo não será aceito.

Acontece-nos frequentemente, na nossa cega impaciência, queixarmo-nos das lentidões da Providência no castigo dos crimes; e por uma singular contradição, ainda a acusamos, quando a sua benfazeja celeridade reprime as inclinações viciosas antes que tenham produzido os crimes. Algumas vezes Deus poupa um culpado conhecido porque a punição seria inútil, ao passo que castiga o culpado oculto, porque esse castigo deve salvar um homem.30

A ação divina sobre o indivíduo aperfeiçoa a vontade somente quando esta está aberta a receber tal ação. De Maistre, como todos os molinistas, tenta evitar o semipelagianismo ao afirmar que o próprio Deus criou as condições para o homem estar aberto a receber a graça. A natureza dada a um indivíduo ordena-o providencialmente.31 Todos os movimentos da vontade estão sujeitos ao primeiro movimento do Criador. Mesmo que a vontade não possa necessariamente ser movida por Deus, é Deus quem ordenou o universo de tal maneira que todas as coisas acontecem de acordo com o seu plano. As concepções de cadeias causais, graça eficaz, scientia media e presciência Divina são todas profundamente molinistas em seu pensamento.

No entanto, De Maistre não era um escolástico estrito. Ele também buscou inspiração teológica noutros lugares. Leu muitos Padres da Igreja e desenvolveu um fascínio por Orígenes. Os cadernos de Maistre indicam que ele leu várias obras de Orígenes a partir de 1809, a mesma época em que escrevia Du Pape e Les Soirées. Politicamente, Orígenes havia sido criticado pelos philosophes e protestantes, o que o tornou um aliado natural para De Maistre.32 As ideias neoplatônicas de Orígenes sobre a Providência e o progresso do universo encaixavam-se bem com as ideias molinistas. Artigos recentes tentaram mostrar que Orígenes e o neoplatonismo formam a base de sua teologia da Providência.33 No entanto, Maistre argumenta que Orígenes é uma fonte valiosa porque seu pensamento é muito semelhante ao de Molina. O Molinismo é a medida pela qual o pensamento de Orígenes é julgado. De Maistre toma a teoria da predestinação de Orígenes, baseada nas boas obras previstas, como um tipo de scientia media:

Orígenes tinha sobre a predestinação ideias perfeitamente semelhantes àquelas que Molina tornou célebres. Sobre estas palavras de São Paulo: Quos autem praedestinavit (Romanos, VIII, 29), ele diz: “Deus, que conhece o futuro e o uso que faremos de nossa liberdade, conhece aqueles que se darão à virtude e os predestina em virtude desse conhecimento […] Não se deve, portanto, crer que essa pré-noção seja a causa das ações, mas ela ocorre por causa dessas ações produzidas livremente”. Isso é precisamente o conhecimento médio [science moyenne]. Ele observa, em seguida, com muita justeza, que o que acontece certamente não acontece por isso necessariamente; depois acrescenta: “suponhamos que sejamos realmente livres, Deus previrá ou não previrá as nossas ações? Se se disser que não, é desconhecer inteiramente a natureza divina. Se se responder afirmativamente, segue-se que esse conhecimento não prejudica em nada a nossa liberdade”.34

Assim, De Maistre argumenta tanto a favor da scientia media quanto da utilidade de Orígenes. Embora raramente mencione o Molinismo, seu entendimento do conhecimento divino forma a base do julgamento de Maistre sobre outras teorias de providência e predestinação.

De Maistre de fato recorreu a novas fontes em sua teologia, mas é quase constantemente crítico em relação aos pensadores iluministas. Seus principais argumentos teológicos contra eles diziam respeito aos erros da concepção iluminista da natureza humana e sua relação com a Providência. Para De Maistre, a natureza forma a recepção da razão e da revelação pelo homem; e cada natureza individual fornece os meios para Deus agir no mundo. Deus age através de instrumentos secundários. Por causa disso, De Maistre argumenta continuamente contra ideias falsas da natureza humana.35 A natureza é o meio pelo qual Deus, providencialmente, ordena cada indivíduo para o bem. A natureza humana está longe de ser uma tabula rasa. É uma realidade dada que é capaz de participar do governo providencial.36 Como veremos a seguir, ele considera o Iluminismo uma das principais causas da Revolução. Portanto, refutar seus princípios tornou-se sua missão.

No entanto, apesar de suas críticas, Maistre empregou cautelosamente o pensamento iluminista a serviço de sua obra. As narrativas históricas de Hobbes e Rousseau, a teoria das ideias inatas de Malebranche e dos Platonistas de Cambridge, e a teodiceia de Leibniz são todas utilizadas por De Maistre para refutar opiniões falsas.37 Embora critique cada uma dessas opiniões, ele também usou esses pensadores contra aqueles que considerava os verdadeiros inimigos da verdade e da tradição: Bacon, Locke e Voltaire.38 Ele também reconheceu que, ao tentar resolver os problemas levantados pelos pensadores iluministas, deu a suas preocupações um lugar de destaque. Por exemplo, ao falar de liberdade, ele tenta mostrar por que o Estado tradicional é a melhor fonte da verdadeira liberdade. Ele acabou por se arrepender de quão profundamente as ideias iluministas haviam moldado sua própria obra e pensou que seus escritos poderiam somente causar danos.39

Assim, De Maistre é um molinista aberto a ideias neoplatônicas e influenciado pelo pensamento iluminista. Ao examinarmos sua compreensão particular e sua resposta à Revolução Francesa, vemos esse molinismo eclético em ação. Por meio dele, De Maistre acredita que Deus ordenou providencialmente o mundo de tal maneira que essa convulsão ocorreria. A tarefa do pensador católico é compreender o bem que Deus realizará através de tais eventos. Na verdade, ele acredita que tais convulsões nos ensinam muito mais sobre Deus do que os tempos de harmonia tranquila.

Não se poderia repetir demasiado: não são os homens que conduzem a revolução, é a revolução que emprega os homens. Diz-se muito bem, quando se diz que ela procede por si mesma. Esta frase significa que a Divindade se mostrou de maneira tão clara quanto em nenhum outro evento humano.40

IV. Causas providenciais da Revolução

Maistre acreditava que a França era a nação mais favorecida divinamente.41 Por causa disso, ela tinha um destino de influenciar a Europa e o mundo. O cristianismo, a língua e a cultura franceses eram faróis guias da civilização. Deus a abençoara e guiara com o dever de trazer todos à salvação. A França, mais do que qualquer outra nação, era responsável pela grandeza da Europa e da Igreja Católica.42 Mas a Revolução destruíra esse caráter. Ela era satânica, uma remoção do favor divino.

Há na Revolução Francesa um caráter satânico que a distingue de tudo o que se viu e talvez de tudo o que se verá. Recordem-se as grandes sessões! Os discursos de Robespierre contra o sacerdócio, a apostasia solene dos padres, a profanação dos objetos, do culto, a inauguração da deusa Razão, e essa multidão de cenas inauditas onde as províncias tentavam superar Paris; tudo isso sai do círculo ordinário dos crimes e parece pertencer a outro mundo.43

Embora satânica, isso não significava que Deus não estivesse envolvido no que ocorria. Ainda havia uma cadeia causal ligando a ação humana e a ação divina. A Revolução arrastava os homens, varridos pela paixão enquanto destruíam o que era bom. Isto foi milagroso. Os homens pensavam estarem se tornando mais livres, mas um após o outro seus líderes eram mortos. A cadeia de ação conectando Deus à vontade individual foi “apertada”, remodelando dramaticamente o que levara gerações para construir.44 Após o Reino do Terror, De Maistre viu todo o evento como uma punição abrangente dos erros presentes na Igreja e no Estado da França.

De Maistre segue Tomás ao afirmar que Deus não é a causa do malum culpae (mal da culpa), mas é a causa do malum poenae (mal da pena).45 Ele não é responsável pelo mal moral, mas é a causa de uma perda do favor divino. No entanto, De Maistre pensa que muitas formas de punição e mal no mundo são os efeitos naturais de más escolhas. Elas existem como remédios para as más escolhas de criaturas livres. Na Providência, Deus planejou que os males morais resultem naturalmente em males físicos. Embora a virtude e o vício não sejam perfeitamente recompensados nesta vida, Deus projetou a natureza humana para sofrer quando ocorrem males morais. Surpreendentemente, Maistre pensa que toda doença tem sua causa em algum mal moral (embora os cristãos possam usar a doença para crescer em santidade).46 Ele obtém essa ideia tanto de Bossuet quanto de Orígenes. Não é somente que o mundo se tornou sujeito à dor e à morte após a Queda (a feliz culpa original). Antes, a maioria das doenças possui uma causa mais próxima, frequentemente uma causa da própria pessoa que está doente.

Recordo-me de que Bossuet, pregando perante Luís XIV e toda a sua corte, chamava a medicina para testemunhar as consequências funestas da volúpia. […] e, por minha parte, não posso me recusar ao sentimento de um novo apologista que sustentou que todas as doenças têm sua fonte em algum vício proscrito pelo Evangelho; que esta lei santa contém a verdadeira medicina do corpo tanto quanto a da alma, de modo que numa sociedade de justos que dela fizessem uso, a morte não seria mais do que o termo inevitável de uma velhice sã e robusta; opinião que foi, creio eu, a de Orígenes.47

Há uma relação direta de causa e efeito, fora de qualquer intervenção divina ou ocasionalismo, entre o mal moral e o sofrimento. Isso pode ser estendido além do indivíduo para uma cidade ou mesmo para uma nação.48 A cultura de um povo é parte de uma natureza compartilhada. Assim como a natureza humana se rebela contra o mal moral ao ficar doente, uma cultura adoece como resultado de seus erros. No curso normal dos eventos, esses erros levam gerações para serem punidos. As culturas gradualmente ascendem e caem como resultado de suas ideias e moralidade. Mas o que se vê na Revolução Francesa é muito mais dramático. De Maistre argumenta que Deus suspendeu o prazo usual de punição para um povo para que ele possa ser punido de forma muito mais severa e rápida.49

Os erros dos franceses foram principalmente teológicos. Protestantismo, Jansenismo, galicanismo e philosophisme causaram, cada um, as falsas ideias de Igreja e Estado no cerne do Jacobinismo e da Revolução. Cada um desses movimentos foi contra a autoridade legítima da revelação, colocando a determinação da verdade no indivíduo. Se a cultura fornecia os meios para o governo providencial de um povo, cada um desses erros rejeitou a cultura na tentativa de determinar o próprio futuro. Cada erro exaltou o indivíduo acima da comunidade. Foram revoltas contra a autoridade legítima de Deus, da Igreja e da natureza, tornando a revelação subserviente a algum outro princípio.50

Para De Maistre, a Revolução começou com a Reforma. Os reformadores colocaram a autoridade na vontade do povo contra a autoridade da Igreja. O protestantismo é o erro de colocar o indivíduo acima da tradição e da unidade; negou a autoridade legítima e necessária. Era natural que tal ideia fosse estendida do âmbito religioso para o político.

No século XVI, os revoltados atribuíram a soberania à Igreja, isto é, ao povo. O século XVIII apenas transporta essas máximas para o político; é o mesmo sistema, a mesma teoria, até suas últimas consequências. Qual diferença há entre a Igreja de Deus, unicamente conduzida por sua palavra, e a grande república una e indivisível, unicamente governada por suas leis e pelos deputados do povo soberano? Nenhuma. É a mesma loucura, tendo apenas mudado de época e de nome.51

Embora a França tivesse rejeitado o Protestantismo definitivamente com a revogação do Édito de Nantes em 1685, ela ainda assim era responsável pela disseminação do protestantismo por todo o mundo. De Maistre a culpa pelo Calvinismo e seus desdobramentos.52 Ademais, um erro análogo infiltrara-se na Igreja Francesa. O galicanismo colocou a Igreja em uma posição subserviente ao Estado. Em todos os países protestantes, o Estado tornara-se o guardião da prática protestante e o árbitro de qual tipo de protestantismo seria adotado. Tanto no protestantismo quanto no galicanismo, o político suplantou o religioso.

Sob Bossuet, a Igreja Francesa podia afirmar que era sólida devido ao seu exemplo de santos e à contínua evangelização. Maistre, em sua juventude, fora simpático a essa ideia; o ducado da Saboia adotara princípios galicanos de governo eclesiástico. Mas a Revolução mostrou o quanto isso era prejudicial. A Assembleia Nacional tornou rapidamente o clero subserviente ao Estado.

Argumentar contra a nacionalização da Igreja Francesa exigia reconhecer uma autoridade externa ao Estado. O galicanismo não pôde resistir à Revolução, precipitando seu eventual desaparecimento. O jansenismo também cairia pela mesma lógica. Ele buscou refúgio contra os decretos papais por meio do Estado francês. Esses mecanismos falharam. A teologia de Maistre é constantemente crítica em relação a eles ao longo de sua obra. Ele os vê como irremediavelmente protestantes e influenciados pelo mesmo orgulho que infectou a filosofia iluminista.53
Philosophisme é o termo de Maistre (adotado de Voltaire) para designar um raciocínio inflado desconectado da realidade dada de um povo e de uma cultura.54 O empirismo do século XVII e a filosofia iluminista do século XVIII eram a antítese do Cristianismo, engajados em uma batalha para destronar as verdades da revelação.55 O Iluminismo exaltou uma forma de razão considerada científica. Ao fazê-lo, divorciou-se da realidade. Gritou pela exaltação da razão e da liberdade, ignorante de que seus projetos resultariam na morte de ambas.56 Semelhante ao protestantismo, o Iluminismo também se separara da tradição e da história. Eram erros paralelos.

No cerne da crítica de Maistre a esses erros (protestantismo, galicanismo, Jansenismo e philosophisme) está o fato de que cada um possuía uma compreensão falsa da Providência. Para De Maistre, a história era a fonte para entender a ação de Deus no mundo. Divorciar-se da tradição e da unidade era tentar separar-se da história e do governo divino.57 De Maistre foi descrito como um apoiador fanático da tradição, mas sua compreensão é muito mais nuançada.58 A tradição e a história fornecem percepção sobre como Deus ordena o universo e cumpre a sua vontade. Em sua compreensão molinista, a Providência realiza seus meios através da ordenação de vontades desvinculadas. A vontade tentar se rebelar contra a tradição e a história, quando injustificada, é rebelar-se contra a verdade e contra o próprio Deus.59 A Reforma iniciou esse processo. Foi completado pela Revolução.60

Para De Maistre, o protestantismo, o Jansenismo e o materialismo iluminista também conduziam inevitavelmente ao fatalismo. A dupla predestinação de Calvino, seus ecos no Jansenismo e o sistema rígido de leis invariáveis no materialismo, todos destroem a liberdade do homem.61 A ironia é que a Revolução começou exigindo mais liberdade, justiça e poder. Mas, quando seguidos, esses ideais inevitavelmente resultariam em seus contrários. Seus objetivos provariam ser sua própria punição.

Pode-se mesmo notar uma afetação da Providência (permitam-me esta expressão); é que os esforços do povo para atingir um objeto são precisamente o meio que ela emprega para afastá-lo dele. Assim, o povo romano deu-se a senhores [mestres] crendo combater a aristocracia ao seguir César. Esta é a imagem de todas as insurreições populares. Na revolução francesa, o povo foi constantemente acorrentado, ultrajado, arruinado, mutilado por todas as facções; e as facções, por sua vez, joguetes umas das outras, derivaram constantemente, malgrado todos os seus esforços, para se arrebentarem finalmente no escolho que as aguardava.62

Assim, Maistre pensava que a França merecia punição. Falsas opiniões teológicas haviam sido aceitas e precisavam ser purgadas. Essas opiniões haviam infectado a nobreza e o clero. Ambos haviam se enamorado pelo Iluminismo e menosprezado o valor da tradição.63 Ambos haviam negligenciado a autoridade própria do papado, da tradição e da Divina Providência.64 De Maistre também pensava, em um nível natural, que o clero havia se tornado relaxado como resultado de sua riqueza. Mas, com a perda da propriedade, Deus faria surgir homens para o sacerdócio que estivessem preocupados somente com o bem da Igreja, e não com o avanço material. Os erros do clero e do Estado na França eram ainda mais graves porque a França tinha um papel em guiar o resto da Europa. A França tinha uma vocação divina para sustentar a fé e espalhar a cultura. Esse mesmo espírito cultural que espalhou a fé foi responsável por espalhar os males da Revolução. A França seria punida primeira e mais severamente para a Europa poder encontrar uma base mais segura na tradição e na religião.

A Providência, que sempre proporciona os meios ao fim, e que dá às nações, como aos indivíduos, os órgãos necessários ao cumprimento de sua destinação, deu precisamente à nação francesa dois instrumentos, e, por assim dizer, dois braços, com os quais ela move o mundo: sua língua e o espírito de proselitismo que forma a essência de seu caráter; de modo que ela tem constantemente a necessidade e o poder de influenciar os homens.65

Os erros dos franceses haviam se tornado evidentes. A Revolução foi uma punição rápida e drástica. Miraculosamente, a Revolução realizou em questão de alguns anos o que normalmente teria levado gerações para desfazer. Uma geração antes, Voltaire zombara da ideia de justiça divina em relação a um terrível terremoto em Lisboa. Ele questionou se Lisboa realmente merecia tal punição mais do que Paris. Mas agora, com quatro milhões de mortos, De Maistre argumentava que Deus mostrara que a França era, de fato, mais merecedora de punição.66 Começando com a morte do rei, Deus punira os franceses através de seus próprios desígnios.67

Toda a análise de Maistre sobre as causas da Revolução se enquadra numa concepção molinista. Pela presciência divina, Deus não foi surpreendido pelo que ocorreu. Ele criara um mundo no qual ideias falsas resultavam em efeitos negativos. Ao tentar se rebelar contra a tradição e a Igreja, os franceses meramente iniciaram uma punição contra si mesmos. Quatro milhões de mortos era uma punição apropriada e natural para tais erros.68 No entanto, Deus também havia pré-ordenado que uma punição tão drástica teria efeitos positivos. Embora isso assuma formas variadas na obra de Maistre, ele está continuamente confiante em que Deus visa realizar o bem através da Revolução. Em seu sistema molinista, a graça só está em ação quando o homem é capaz e está pronto para recebê-la; portanto, a Revolução foi um tempo de abertura do homem para novamente receber a graça, a fim de produzir um bem posterior.69

V. Progresso e Providência

De Maistre não era de forma alguma um reacionário puramente negativo, como algumas narrativas o retrataram. Embora ele considere a Revolução inquestionavelmente má e satânica, acredita que ela foi uma punição necessária. Como ele afirma que Deus só pune aqueles que são capazes de aceitá-la, Deus deve estar punindo a França em particular, e a Europa como um todo, para algum bom propósito. A Revolução é uma “feliz culpa”. O malum poenae resultante do malum culpae dos muitos erros teológicos ajudará a trazer uma nova Europa renascida. Uma convulsão significava que uma nova ordem começaria. “Se a Providência apaga, sem dúvida é para escrever”.70

Porque a Providência ordena todas as coisas, somente os imperfeitos e os que duvidam se queixam do governo temporal de Deus sobre o mundo.71 Certamente, nesta vida os justos podem ser punidos e os ímpios recompensados, mas isso é somente de acordo com uma visão limitada do funcionamento da Providência. Quando se consegue ver a totalidade da história, o padrão torna-se aparente. Falar da desordem atual é assumir uma perda de uma dada ordem da Providência. Certos tempos extraordinários permitem vislumbrar os planos de Deus com mais clareza. Quando a desordem ocorre, a natureza da ordem providencial de Deus é vista mais claramente. Maistre pensa que a Revolução mostrou a existência da Providência de forma mais definitiva do que qualquer outro momento da história.72

Tendo estudado os padrões da história para conhecer a Providência de Deus, conclusões podem ser tiradas sobre a intenção de Deus para o futuro. Se Deus puniu a França, é para glorificá-la. Se a Igreja, a nobreza e o rei foram destruídos, então certamente Deus pretende que eles ascendam a uma posição mais elevada. Ele aborda a questão da natureza positiva da Revolução de maneira rigorosa. Se a França é realmente a fonte da civilização e da Igreja, então a Revolução deve garantir sua eventual glorificação.

Caso se queira saber o resultado provável da revolução francesa, basta examinar em que todas as facções quiseram o aviltamento, a destruição mesma do cristianismo universal e da monarquia; donde se segue que todos os seus esforços não resultarão senão na exaltação do cristianismo e da monarquia.73

Através do Jacobinismo, a desordem da modernidade se manifesta. O Jacobinismo levou os erros dos séculos XVII e XVIII às suas conclusões lógicas. Ao matar seu rei e desencadear o terror, a França é purgada de tais erros. A França só poderia ser salva pelo Jacobinismo.74 Ele iniciou a punição curativa sobre a nação e o continente para torná-los novos. Após o término da punição da Revolução, ela poderia eventualmente entrar em um futuro maior. Esse futuro maior incluiria uma Igreja renovada. As próprias políticas que a Revolução promulgou para destruir o sacerdócio seriam sua fonte de regeneração. “O primeiro golpe desferido contra a Igreja foi a invasão de suas propriedades; o segundo foi o juramento constitucional: e estas duas operações tirânicas começaram a regeneração”.75

Para os sacerdotes e religiosos que se opuseram ao Jacobinismo, a Revolução também deu à luz inúmeros mártires e refugiados. Isso daria testemunho aos franceses e a toda a Europa.76 Por causa disso, Maistre também esperava que a Revolução trouxesse o fim do protestantismo. Muitos bispos e clérigos haviam partido para a Inglaterra. Agora, aqueles ingleses que há muito eram hostis à Igreja passariam a formar laços mais estreitos, inaugurando uma nova era na Igreja.77 A Igreja Anglicana, sendo parte católica francesa e parte presbiteriana francesa, poderia formar um elo para trazer todo o mundo cristão de volta sob a égide do papa. A característica de proselitismo, natural à França, traria um renascimento da Cristandade.

Maistre manteve essa crença sobre uma renovação vindoura da Cristandade nas Considerações sobre a França em 1796, durante a era do Diretório. À medida que a Revolução progredia pela Europa e seus ideais se moderavam e estabilizavam sob Napoleão, o otimismo de Maistre diminuiu. O estilo e o conteúdo de suas previsões mudaram ao longo de seus escritos, à medida que ele se tornava progressivamente mais pessimista sobre quão profundamente a Revolução se tornara parte da sociedade europeia. De acordo com seu pensamento molinista, ele estava convencido de que o bem ainda aconteceria e que tudo é feito de acordo com a vontade de Deus. Mas De Maistre gradualmente começou a entender que esses bons efeitos podem não ocorrer por gerações. A Restauração dos Bourbons estava longe do que De Maistre esperara. Ela não resultou no fim das ideias revolucionárias, mas sim numa institucionalização de princípios falsos à guisa de monarquia. Mas sua crença de que o papado desempenharia um papel em uma nova Europa foi mantida. À medida que as pessoas clamavam por liberdade, somente o papa que poderia mantê-la.

Sua visão para uma nova Europa centrava-se em um poder renovado do papado. O papa era o único garantidor da fé e da verdade. Ele argumentou isso historicamente. Contra Rousseau, De Maistre argumenta que o Cristianismo foi a fonte da civilização e da liberdade ao longo da história. Apenas o Cristianismo libertou o mundo e forneceu cultura. Não é verdade que o homem nasceu livre e está agora em toda parte acorrentado.

O contrário dessa afirmação insensata, o homem nasceu livre, é a verdade. Em todos os tempos e em todos os lugares, até o estabelecimento do cristianismo, e mesmo até que esta religião houvesse penetrado suficientemente nos corações, a escravidão sempre foi considerada como uma peça necessária do governo e do estado político das nações, nas repúblicas como nas monarquias, sem que jamais passasse na cabeça de nenhum filósofo condenar a escravidão, nem na de nenhum legislador atacá-la por leis fundamentais ou de circunstância.78

Foi a Igreja que concedeu o que a Revolução e os philosophes afirmavam desejar. Portanto, só poderia ser a Igreja a garantir os resultados positivos da Revolução. Essa Igreja necessariamente envolvia uma autoridade central. A infalibilidade era uma consequência dessa autoridade. Assim como um rei é soberano, um papa é infalível.79 Se ele não fosse infalível, poderia ser desobedecido. As consequências de desobedecer ao papa seriam descer para outra eventual Revolução, como a Reforma demonstrara. Tornar a Igreja subserviente ao Estado resultara no Estado tornar-se uma religião.

De Maistre pensava que a exaltação da razão dos philosophes mostrara-se falsa. Eles divorciaram o pensamento da cultura e da realidade. A história fornecia os meios para conhecer a verdadeira governança e a ação correta. Planejar abstratamente como os filósofos iluministas, ou distorcer a história em uma crítica da cultura como Rousseau, resultara em colapso. Uma nação sem história ou tradição escravizava os homens e resultava em terror. Assim, o senso e fé comuns do povo prevaleceriam. Isso provaria ser uma das contribuições mais importantes de Maistre para o pensamento católico.

Embora a maior parte de sua influência fosse política, seu trabalho teológico continuou a inspirar teólogos na geração após sua morte. Além de seu Molinismo, De Maistre apresenta algumas ideias de um futuro possível a partir de influências de Orígenes e de correntes maçônico-iluministas que tinham ressonância. Em Les Soirées, De Maistre faz com que um personagem, um senador russo, especule sobre uma possível nova ordem das coisas.80 Cuidadoso para evitar afirmar que uma nova “Era do Espírito” raiaria sobre a Terra, as ideias apresentadas pelo Senador, no entanto, ecoam as ideias universalistas de salvação de Orígenes e as crenças joaquimitas em uma idade final do mundo começando em seu tempo.81 A Igreja pode prevalecer até o fim, mas pode assumir uma nova forma.

Deus estará conosco até o fim dos séculos; as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, etc. Muito bem! Resulta disso, pergunto-vos, que Deus se interditou toda nova manifestação, e que não Lhe é mais permitido nos ensinar nada além do que sabemos? Isto seria, é preciso admitir, um raciocínio estranho.82

O senador argumenta a partir de eventos atuais—incluindo: os fracassos do protestantismo, a irracionalidade do Islã, a disseminação da Bíblia e o testemunho da Revolução—que um tipo renovado de Igreja emergiria no mundo moderno. Em Les Soirées, De Maistre não afirma explicitamente concordar com as conclusões do senador, mas reconhece que elas vêm da maçonaria e do iluminismo.83 O mundo realmente parecia estar entrando em uma nova era. Assim como os philosophes e jacobinos pensaram estar criando uma nova Cidade sobre uma Colina, os cristãos também esperavam razoavelmente que Deus realizaria o mesmo através deles.

É impossível dizer se o próprio Maistre acreditava que um novo mundo e um novo tipo de cristianismo emergiriam, mas certamente é razoável assumir que ele considerava isso uma possibilidade. Suas esperanças iniciais de uma monarquia e Igreja francesas restauradas concretizaram-se, mas ficaram muito aquém do tipo de restauração que ele esperara. A Revolução não foi derrotada em seu tempo de vida. Na verdade, muitos de seus ideais foram consagrados no governo francês sob Luís XVIII. Em Du Pape, De Maistre repete as ideias de que uma Igreja renovada resultará da Revolução, mas suas esperanças estão colocadas em um futuro distante. Ele reconhece que Deus permitiu que a Revolução tivesse sucesso de muitas maneiras, apesar de seu múltiplo mal. De Maistre há muito reconhecia que a Revolução era irreversível, mas esperava que Deus a usasse mais rapidamente para punir os males do mundo.

Conclusão

Através de toda a análise de Joseph de Maistre sobre as causas da Revolução Francesa, seus efeitos pela Europa e seus possíveis bons resultados, o Molinismo guia seu pensamento. Ele está firmemente convencido da realidade de uma ordenação providencial da criação, mesmo em meio à convulsão. Na verdade, a existência de tal caos prova que o mundo tem uma ordem típica. Além disso, a liberdade do homem permanece plenamente livre para escolher. Embora a Revolução tenha diminuído a liberdade individual ao arrastar os homens em um furor de paixão, Deus não impôs nenhuma necessidade à vontade. Conhecida desde toda a eternidade, a Revolução será uma fonte de renovação e purificação para a Igreja e o Estado.

Ao estudar a história para conhecer os caminhos de Deus, De Maistre aborda os desafios particulares da Revolução de forma sistemática e racional. A França fora a fonte da cultura e o país católico mais fiel. Quando Deus permitiu que a França entrasse em colapso, deve ter sido para fazê-la erguer-se novamente. Más ações e crenças têm consequências reais. Os erros do philosophisme, do protestantismo, do Jansenismo e do galicanismo resultaram no Jacobinismo e na Revolução. Estas foram consequências naturais. Deus pode ser o autor do malum poenae, mas a punição está inscrita na própria natureza da causa e efeito na criação. Mesmo que o período de mudança seja milagroso, esses erros quase que necessariamente resultam na morte de milhões, em uma Igreja colapsada, em um rei assassinado e em um continente mergulhado em guerra.

Embora De Maistre seja certamente apaixonado por Orígenes e busque defendê-lo, seu pensamento é melhor entendido como um desenvolvimento do Molinismo. Portanto, também é suscetível às críticas dirigidas ao Molinismo. Embora De Maistre mencione a graça (raramente), os eventos, incluindo o crescimento futuro, a estabilização e a glorificação da Igreja, são amplamente entendidos como sendo de causa natural.84 Estes são eventos que necessariamente brotarão da Revolução, em vez de brotarem da graça eficaz. Esta posição molinista é também um tipo de rapprochement com o Iluminismo, particularmente na questão da liberdade humana.

Este artigo somente examinou brevemente o engajamento e as críticas de Maistre ao Iluminismo, optando em vez disso por situar sua compreensão da Providência dentro das concepções católicas existentes. Mas o próprio De Maistre reconheceu que havia cedido demasiado às ideias iluministas. Em Du Pape, a separação de poderes, a ênfase na liberdade, o combate aos tiranos e os limites da autoridade eram preocupações iluministas. Ao argumentar pelo papel da Igreja em garanti-los, ele aceitara suas críticas e ideias. Meramente transferira o papel de garanti-los para o papa. Apesar de seus esforços, o Iluminismo parecia ter se tornado parte de seu próprio pensamento. Ele influenciaria certamente a Europa por gerações futuras.

O pensamento teológico de Maistre, assim como suas ideias políticas e históricas, merecem uma reavaliação. Este primeiro “teólogo moderno” continua os debates existentes do período pré-moderno, mas de uma forma aberta a outras influências. Ele não é o pelagiano que alguns pintaram. Pelo contrário, foi um molinista que buscou condenar a Revolução inequivocamente e compreender suas causas e efeitos. Embora restassem poucos jesuítas para responder a tal convulsão na Igreja, De Maistre usou fielmente os princípios congruístas para auxiliar entender o porquê de Deus permitir que tal evento ocorresse. Compreender sua dependência da tradição repousa sobre o entendimento deste fundamento teológico.

St. John’s Seminary, Nathaniel Sanders
Boston College School of Theology and Ministry
127 Lake Street, Boston, MA, 02135, USA
sanderna@bc.edu

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NOTAS


  1. O livro mais recente em inglês sobre Maistre, The French Idea of History, de Carolina Armenteros, oferece um relato muito útil do pensamento político, das fontes e da influência de Maistre. No entanto, a análise teológica da autora é menos abrangente. Armenteros e Richard Lebrun, o outro principal estudioso anglófono de Maistre, editaram recentemente um livro de ensaios sobre o autor: Joseph de Maistre and the Legacy of the Enlightenment. Embora muitos dos ensaios sejam muito perspicazes, as análises da teologia de Maistre tendem a focar exclusivamente em sua leitura de Orígenes e em sua possível heterodoxia. No entanto, Maistre já tinha opiniões firmes sobre a providência antes de voltar a ler Orígenes em 1809, muito tempo após publicar as Considerações sobre a França. Há mais uma convergência de pensamento do que uma influência direta. Ver também A. Barbeau, “The Savoyard Philosopher”, pp. 161-189.↩︎

  2. Os fatos básicos da vida de Maistre são retirados do Avant-Propos feito por Pierre Glaudes para Joseph de Maistre: Œuvres. A mais recente biografia de Maistre em inglês é R. Lebrun, Joseph de Maistre: An Intellectual Militant.↩︎

  3. Darcel, “Sources of Maistrian Sensibility”, em Maistre Studies, 101.↩︎

  4. Armenteros, French Idea of History, 24.↩︎

  5. Seu trabalho promovendo os planos jesuíticos para educação e governança na Rússia interromperam a escrita de Les Soirées por um tempo. Glaudes, Avant-propos em Joseph de Maistre: Œuvres, 4-5.↩︎

  6. J.-L. Darcel, “Maistre’s Correspondence”, 74.↩︎

  7. Os Jesuítas foram restaurados em Sardenha em 1807. Ver P. Shore, “The Years of Jesuit Suppression”, 1-117.↩︎

  8. C. Armenteros, French Idea of History, 137. Demonstrando sua devoção familial, Maistre chegou a dizer: “Meu avô amava os Jesuítas, meu pai os amava, minha sublime mãe os amava, eu os amo, meus filhos os amam, seus filhos os amarão, se o rei assim lhe permitir [Mon grand-père aimait les jésuites, mon père les aimait, ma sublime mère les aimait, je les aime, mon fils les aime, son fils les aimera, si le roi lui permet d’en avoir un]”.↩︎

  9. J. O’Malley, “Vatican I: Loss and Gain”.↩︎

  10. J. de Maistre, Œuvres Complètes, Du Pape, II: xvii. [Texto original: Il pourra paraître surprenant qu’un homme du monde s’attribue le droit de traiter des questions, qui jusqu’à nos jours, ont semblé exclusivement dévolues au zèle et à la science de l’ordre sacerdotal… Mille causes ont affaibli l’ordre sacerdotal. La Révolution l’a dépouillé, exilé, massacré ; elle a servi de toutes les manières contre les défenseurs—nés de maximes qu’elle abhorrait. Les anciens athlètes de la milice sainte sont descendus dans la tombe ; de jeunes recrues s’avancent pour occuper leur place].↩︎

  11. H. de Lubac, La postérité spirituelle de Joachim de Fiore, 306.↩︎

  12. A afirmação frequente de Isaiah Berlin de que Maistre é um protofascista tem sido consistentemente criticada por estudiosos de Maistre. Ver J.-Y. Pranchère, “The Negative of the Enlightenment, the Positive of Order”, p. 48. No entanto, a caracterização de Berlin continua a ter aceitação em histórias populares. Ver E. Fawcett, Conservatism: The Fight for a Tradition, pp. 9-10.↩︎

  13. A. Barbeau, “The Savoyard Philosopher”, 161-162.↩︎

  14. C. Armenteros, The French Idea of History, 193.↩︎

  15. O único lugar em que Joseph de Maistre menciona o Molinismo ou Molina em seus escritos publicados é na defesa de ambos contra Pascal e suas críticas jansenistas aos jesuítas. Œuvres Complètes, De l’Église Gallicane, III: 73. A obra publicada contém uma nota de rodapé afirmando que não é necessário ser molinista para ser católico; basta simplesmente não ser jansenista. No entanto, no manuscrito de Maistre, a afirmação de que “não era necessário ser molinista” foi riscada! Ver On the Gallican Church, traduzido por Lebrun.↩︎

  16. Para uma completa discussão acerca da teoria da scientia media de Molina, ver K. R. MacGregor, Luis de Molina, 79-105.↩︎

  17. R.J. matava, Divine Causality and Human Free Choice, 188-191.↩︎

  18. Ver verbete Congruism na Catholic Encyclopedia: W. mcdonaLd, “Congruism”.↩︎

  19. O termo promoção física não foi utilizado pelo próprio Tomás de Aquino. Contudo, após Domingo Báñez, tornou-se a posição tomista mais comum. Nos séculos XVII e XVIII, o bañezianismo passou a ser praticamente sinônimo de tomismo. As distinções entre Tomás e Báñez são um desenvolvimento do século XX, sob a influência de figuras como Marín-Sola, Maritain e Lonergan. Cf. T. P. O’Neill, Grace, Predestination, and the Permission of Sin, pp. 10-11.↩︎

  20. T.P. O’Neill, Grace, Predestination, and the Permission of Sin, 71-78.↩︎

  21. Por exemplo, o Segundo Diálogo de Les Soirées du Saint-Pétersbourg apresenta uma defesa de Tomás de Aquino com base no argumento de que, embora ele não pudesse prever desenvolvimentos futuros, seu pensamento foi um dom para a Igreja no século XIII. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV: 114.↩︎

  22. Retirado de suas notas sobre Locke. Ver M. Froidefont, Théologie de Joseph de Maistre, 110 [citação original: Je n’ai jamais aimé l’expression de prémotion physique, dont on s’est servi dans quelques écoles pour désigner l’action divine de Dieu sur l’homme. On peut dire que ces deux mots brûlent d’effroi de se voir ensemble].↩︎

  23. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV: 284.↩︎

  24. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV: 4.↩︎

  25. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I:1. [texto original: Nous sommes tous attachés au trône de l’Être suprême par une chaîne souple, qui nous retient sans nous asservir. Ce qu’il y a de plus admirable dans l’ordre universel des choses, c’est l’action des êtres libres sous la main divine. Librement esclaves, ils opèrent tout à la fois volontairement et nécessairement : ils font réellement ce qu’ils veulent, mais sans pouvoir déranger les plans généraux. Chacun de ces êtres occupe le centre d’une sphère d’activité, dont le diamètre varie au gré de l’éternel géomètre, qui sait étendre, restreindre, arrêter ou diriger la volonté, sans altérer sa nature].↩︎

  26. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I:2.↩︎

  27. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV:434 [texto original: Maintenant si vous considérez que Dieu même ne saurait forcer la volonté, puisqu’une volonté forcée est une contradiction dans les termes, vous sentirez que la volonté ne peut être agitée et conduite que par l’attrait (mot admirable que tous les philosophes ensemble n’auraient su inventer). Or, l’attrait ne peut avoir d’autre davantage, de manière que l’attrait ne saurait pas plus nuire à la liberté ou à la volonté que l’enseignement, de quelque ordre qu’on le suppose ne saurait nuire à l’entendement].↩︎

  28. De Maistre compara essa ideia molinista de graça à de outras ações humanas. Por exemplo, o conhecimento se aperfeiçoa por meio de um movimento em direção a um objeto externo ao sujeito, e não por infusão divina. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV: 434.↩︎

  29. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV: 37. “La Providence, pour qui tout est moyen, même l’obstacle, ne s’est pas moins servie du crime ou de l’ignorance pour exécuter cette justice temporelle que nous demandons” [A providência, para a qual tudo é meio, mesmo o obstáculo, não deixou de se servir do crime ou da ignorância para executar essa justiça temporal que reclamamos].↩︎

  30. Œuvres Complètes, Les Soirées, V: 131 [texto original: Il nous arrive souvent, dans notre aveugle impatience, de nous plaindre des lenteurs de la Providence dans la punition des crimes ; et par une singulière contradiction, nous l’accusons encore, lorsque sa bienfaisante célérité réprime les inclinations vicieuses avant qu’elles aient produit les crimes. Quelquefois Dieu épargne un coupable connu parce que la punition serait inutile, tandis qu’il châtie le coupable caché, parce que ce châtiment doit sauver un homme].↩︎

  31. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV: 249. “C’est une des lois les plus évidentes du gouvernement temporel de la Providence, que chaque être actif exerce son action dans le cercle qui lui est tracé, sans pouvoir jamais en sortir” [Esta é uma das leis mais evidente do governo temporal da Providência, que cada ser ativo exerce sua ação dentro do círculo que lhe é traçado, sem poder jamais sair dele].↩︎

  32. De Maistre defende a concepção tomista de causalidade secundária e participação na governança divina. M. Froidefont, Théologie de Joseph de Maistre, 104-5.↩︎

  33. M. Froidefont, “Joseph de Maistre, Lecture d’Origène”, 112.↩︎

  34. Citação das notas de Maistre, retiradas de M. Froidefont, “Joseph de Maistre, Lecture↩︎

  35. Ideias falsas sobre a natureza constituem as críticas mais duras de Maistre a Locke, Voltaire e Rousseau (embora ele seja mais simpático à crítica que Rousseau faz ao Iluminismo). C. Armenteros, The French Idea of History, p. 44.↩︎

  36. Maistre defendeu com maior vigor a causalidade secundária contra o ocasionalismo de Malebranche. Cf. Œuvres Complètes, Les Soirées, V: 190.↩︎

  37. Para o uso (e ódio) de Rousseau, ver C. Armentero, “Maistre’s Rousseaus”, 79-104. Ver também P. Barthelet, “The Cambridge Platonists Mirrored by Joseph de Maistre”, 67-78.↩︎

  38. Maistre escreveu uma obra inteira tentando refutar o cientificismo de Bacon e desvinculando a história da razão. Grande parte de Les Soirées é dedicada a argumentar contra Locke. Contudo, Maistre despreza Voltaire mais do que qualquer outro. Em um desabafo particularmente vívido contra Voltaire, o Conde inclui a frase marcante: “Paris o coroou, Sodoma o teria banido”. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV: 21.↩︎

  39. Embora alguns o descrevam como nominalista, a forte concepção de natureza humana presente em De Maistre sugeriria o contrário. Cf. C. Armenteros, The French Idea of History, p. 193.↩︎

  40. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 7 [texto original: On ne saurait trop le répéter, ce ne sont point les hommes qui mènent la révolution, c’est la révolution qui emploie les hommes. On dit fort bien, quand on dit qu’elle va toute seule. Cette phrase signifie que jamais la Divinité ne s’était montrée d’une manière si claire dans aucun événement humain].↩︎

  41. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 8.↩︎

  42. Œuvres Complètes, Du Pape, II: xxix-xxxii.↩︎

  43. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 55.↩︎

  44. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 3. “Mais dans les temps de révolution,↩︎

  45. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV: 23. “Votre saint Thomas a dit avec ce laconisme logique↩︎

  46. De fato, era uma concepção comum que a doença estivesse ligada ao mal moral, até mesmo entre pensadores do Iluminismo, como Locke e Voltaire. See C. Taylor, A Secular Age, 43.↩︎

  47. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV: 39-40 [Je me rappelle que Bossuet, prêchant devant Louis XIV et toute sa cour, appelait la médecine en témoignage sur les suites funestes de la volupté. […] et pour moi je ne puis me refuser au sentiment d’un nouvel apologiste qui a soutenu que toutes les maladies ont leur source dans quelque vice proscrit par l’Evangile ; que cette loi sainte contient la véritable médecine du corps autant que celle de l’âme, de manière que dans une société de justes qui en feraient usage, la mort ne serait plus que l’inévitable terme d’une vieillesse saine et robuste ; opinion qui fut, je crois, celle d’Origène].↩︎

  48. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 24. “La Providence, qui proportionne toujours les moyens à la fin, et qui donne aux nations, comme aux individus, les organes nécessaires à l’accomplissement de leur destination” [A Providência, que proporciona sempre os meios para o fim, e que dá às nações, bem como aos indivíduos, os órgãos necessários ao cumprimento de sua destinação].↩︎

  49. Œuvres Complètes, Les Soirées, V: 28.↩︎

  50. M. Froidefont, Théologie de Joseph de Maistre, 335-340.↩︎

  51. Œuvres Complètes, Du Pape, II: 4 [Dans le XVIe siècle, les révoltés attribuèrent la souveraineté à l’Eglise, c’est-à-dire au peuple. Le XVIIIe ne fait que transporter ces maximes dans le politique ; c’est le même système, la même théorie, jusque dans ses dernières conséquences. Quelle différence y a-t-il entre l’Eglise de Dieu, uniquement conduite par sa parole, et la grande république une et indivisible, uniquement gouvernée par ses lois et par les députés du peuple souverain ? Aucune. C’est la même folie, ayant seulement changé d’époque et de nom].↩︎

  52. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 23.↩︎

  53. M. Froidefont, Théologie de Joseph de Maistre, 333-4.↩︎

  54. J.-Y. Pranchere, “The Negative of the Enlightenment, the Positive of Order”, 50-1.↩︎

  55. Ver Œuvres Complètes, Considérations sur la France em Œuvres, I: 61-2. “La génération présente est témoin de l’un des plus grands spectacles qui jamais ait occupé l’oeil humain: c’est le combat à outrance du christianisme et du philosophisme. La lice est ouverte, les deux ennemis sont aux prises, et l’univers regarde” [A geração presente é testemunha de um dos maiores espetáculos que jamais ocuparam o olhar humano: é o combate até o extremo entre o cristianismo e o filosofismo. A arena está aberta, os dois inimigos estão em confronto, e o universo observa].↩︎

  56. Œuvres Complètes, Du Pape, II: 345-6.↩︎

  57. M. Froidefont, Théologie de Joseph de Maistre, 280-5.↩︎

  58. Essa caracterização foi popularizada por Isaiah Berlin. Ver C. Armenteros–R. LeBrun, “Introduction”, 2.↩︎

  59. Œuvres Complètes, Du Pape, II: xxxvii. “Le protestantisme, le philosophisme et mille autres sectes plus ou moins perverses ou extravagantes, ayant prodigieusement diminué les vérités parmi les homme, le genre humain ne peut demeurer dans l’état où il se trouve”.↩︎

  60. Œuvres Complètes, Du Pape, II: 530. “La structure du philosophisme ne pouvait être érigée que sur la vaste base de la Réforme” [A estrutura do filosofismo não poderia ter erigido senão sobre a vasta base da Reforma].↩︎

  61. M. Froidefont, “Joseph de Maistre, Lecture d’Origène”, 114.↩︎

  62. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 117 [texto original: “On peut même remarquer une affectation de la Providence (qu’on me permette cette expression) ; c’est que les efforts du peuple pour atteindre un objet, sont précisément le moyen qu’elle emploie pour l’en éloigner. Ainsi, le peuple romain se donna des maîtres en croyant combattre l’aristocratie à la suite de César. C’est l’image de toutes les insurrections populaires. Dans la révolution française, le peuple a constamment été enchaîné, outragé, ruiné, mutilé par toutes les factions ; et les factions, à leur tour, jouet les unes des autres, ont constamment dérivé, malgré tous leurs efforts, pour se briser enfin sur l’écueil qui les attendait”].↩︎

  63. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 22-3.↩︎

  64. Œuvres Complètes, Du Pape, II: 34. “Par sa monstrueuse alliance avec le mauvais principe, pendant le dernier siècle, la noblesse française a tout perdu; c’est elle qu’il appartient de tout réparer. Sa destinée est sûre, pourvu qu’elle n’en doute pas, pourvu qu’elle soit bien persuadée de l’alliance naturelle, essentielle, nécessaire, française du sacerdoce et de la noblesse” [Por sua monstruosa aliança com o princípio mau, durante o último século, a nobreza francesa perdeu tudo; e é a ela que cabe reparar tudo. Seu destino é seguro, desde que dele não duvide, desde que esteja plenamente convencida da aliança natural, essencial, necessária e francesa entre o sacerdócio e a nobreza.].↩︎

  65. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 24-5 [La Providence, qui proportionne toujours les moyens à la fin, et qui donne aux nations, comme aux individus, les organes nécessaires à l’accomplissement de leur destination, a précisément donné à la nation française deux instruments, et, pour ainsi dire, deux bras, avec lesquels elle remue le monde, sa langue et l’esprit de prosélytisme qui forme l’essence de son caractère ; en sorte qu’elle a constamment le besoin et le pouvoir d’influencer les homme].↩︎

  66. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV: 228.↩︎

  67. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 12. “Or, tous les crimes nationaux contre la souveraineté sont punis sans délai et d’une manière terrible; c’est une loi qui n’a jamais souffert d’exception” [texto original: ora, todos os crimes nacionais contra a soberania são punidos sem demora e de uma maneira terrível’; esta é uma lei que nunca sofreu exceção].↩︎

  68. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 13. “Chaque goutte du sang de Louis XVI en coûtera des torrents à la France ; quatre millions de Français, peut-être, payeront de leurs têtes le grand crime national d’une insurrection anti-religieuse et anti-sociale, couronnée par un régicide” [texto original: Cada gota do sangue de Luís XVI custará torrentes à França; quatro milhões de franceses, talvez, pagarão com suas cabeças o grande crime nacional de uma insurreição antirreligiosa e antissocial, coroada por um regicídio].↩︎

  69. M. Froidefont, “Joseph de Maistre, Lecture d’Origène”, 117-8.↩︎

  70. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 24 [texto original: Si la Providence efface, sans↩︎

  71. Œuvres Complètes, Les Soirées, IV: 184.↩︎

  72. Œuvres Complètes, Les Soirées, V: 102-3.↩︎

  73. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 117 [texto original: “Que si l’on veut savoir le résultat probable de la révolution française, il suffit d’examiner en quoi toutes les factions ont voulu l’avilissement, la destruction même du christianisme universel et de la monarchie ; d’où il suit que tous leurs efforts n’aboutiront qu’à l’exaltation du christianisme et de la monarchie”].↩︎

  74. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 17. “Qu’on y réfléchisse bien, on verra que le mouvement révolutionnaire une fois établi, la France et la Monarchie ne pouvaient être sauvées que par le jacobinisme” [Refletindo bem, ver-se-á que, uma vez estabelecido o movimento revolucionário, a França e a Monarquia só podiam ser salvas pelo jacobinismo].↩︎

  75. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 22 [texto original: Le premier coup porté à l’Église fut l’envahissement de ses propriétés; le second fut le serment constitutionnel: et ces deux opérations tyranniques commencèrent la régénération].↩︎

  76. Œuvres Complètes, Les Soirées, V: 254. “Je crois que, pour la gloire de l’intrépidité sacerdotale, la Révolution a présenté des scènes qui ne le cèdent en rien à tout ce que l’histoire ecclésiastique offre de plus brillant dans ce genre. Le massacres des Carmes, celui de Quiberon, cent autres faits particuliers retentiront à jamais dans l’univers” [Creio que, para a glória da intrepidez sacerdotal, a Revolução apresentou cenas que em nada ficam atrás do que a história eclesiástica oferece de mais brilhante nesse gênero. O massacre dos Carmelitas, o de Quiberon e uma centena de outros fatos particulares ressoarão para sempre no universo].↩︎

  77. Œuvres Complètes, Considérations sur la France, I: 23. “L’émigration considérable du clergé, et particulièrement des évêques français, en Angleterre, me paraît surtout une époque remarquable. Surement, on aura prononcé des paroles de paix !” [A emigração considerável do clero, particularmente dos bispos franceses, para a Inglaterra, parece-me sobretudo uma época notável. Certamente, terão pronunciado palavras de paz!].↩︎

  78. Œuvres Complètes, Du Pape, II: 338.↩︎

  79. Œuvres Complètes, Du Pape, II: 2. “L’infaillibilité dans l’ordre spirituel, et la souveraineté dans l’ordre temporel, sont deux mots parfaitement synonymes. L’un et l’autre expriment cette haute puissance qui les domine toutes, dont toutes les autres dérivent, qui gouverne et n’est pas gouvernée, qui juge et n’est pas jugée” [A infalibilidade na ordem espiritual e a soberania na ordem temporal são duas palavras perfeitamente sinônimas. Ambas exprimem aquele alto poder que domina todos os outros, do qual todos os demais derivam, que governa e não é governado, que julga e não é julgado].↩︎

  80. Três personagens, um conde saboiano, um senador russo e um jovem oficial francês, procuram compreender os males que se abateram sobre a Europa e o propósito que Deus poderia ter tido ao permitir tais acontecimentos. O conde, que é sem dúvida o próprio Maistre, apresenta a visão molinista-católica da providência. O senador defende ideias iluministas, coerentes com as escolas maçônicas que Maistre conhecia. O jovem oficial é levado pelos outros dois a rejeitar os ideais iluministas de progresso.↩︎

  81. Henri de Lubac identifica um traço joaquimita no pensamento de Maistre. Sem que Lubac o soubesse, Maistre utilizou o nome de Joaquim de Fiore como pseudônimo ao ingressar na maçonaria. Contudo, como o próprio Lubac reconhece, Maistre evita afirmar que chegará uma nova revelação ou que a Igreja cessará. C. Armenteros, The French Idea of History, p. 23. Ver também M. Froidefont, Théologie de Joseph de Maistre, p. 445.↩︎

  82. Œuvres Complètes, Les Soirées, V: 243 [texto original: “Dieu sera avec nous jusqu’à la fin des siècles ; les portes de l’enfer ne prévaudront pas contre l’Eglise, etc. Fort bien ! En résulte-t-il je vous prie, que Dieu s’est interdit toute manifestation nouvelle, et qu’il ne lui est plus permis de nous apprendre rien au-delà de ce que nous savons ? Ce serait, il faut l’avouer, un étrange raisonnement”].↩︎

  83. Œuvres Complètes, Les Soirées, V: 248.↩︎

  84. No sistema molinista, a graça eficaz não é a causa única da variação de santidade ou de adesão fiel à vontade divina.↩︎

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